Voltando minhas lembranças ao passado, comecei a pensar nas coisas da religião católica do meu tempo de criança que depois que foram mudadas foram esquecidas. A primeira coisa que acabou que eu me lembrei, foi a irmandade de São Benedito, cujos irmãos vestiam opas pretas e brancas, e sempre precediam as procissões que aconteciam aqui em Serra Negra, carregando seus estandartes.
Depois disto, lembrei-me das celebrações cantadas ou rezadas em latim, língua que não entendíamos, mas que achávamos a coisa mais bonita do mundo. Dos sinos da igreja badalando todas as noites, no momento da reza em que benziam o Santíssimo Sacramento. Da Cerimônia das sete últimas palavras de Jesus no Calvário realizada ao cair da tarde da sexta-feira Santa, na qual havia uma espécie de triângulo de madeira, cheio de velas acesas, as quais no decorrer da cerimônia o sacristão apagava uma a uma e quando a última era apagada também apagavam-se as luzes da igreja e na escuridão que se formava, batíamos os pés no assoalho da igreja para representar o tremor de terra da hora da morte de Jesus. As lembranças são tantas que se fosse escrever sobre todas, teria que ocupar todo o espaço da coluna, sendo assim vou escrever sobre a última coisa que me lembrei que também desapareceram os coroinhas.
Destes lembrei-me que no tempo do Cônego Scardino, foram confeccionados conjuntos de túnicas e sobrepelis, que vestiriam cinco ou seis coroinhas, mas no dia marcado para a inauguração das novas vestimentas, apareceram mais de vinte meninos para ocupar os postos. A bondosa catequista Dona Tininha teve muito trabalho em escolher quem seriam os coroinhas, devo dizer que quase saiu briga entre os escolhidos e entre os que sobraram, estava eu. Depois destes acontecimentos, na Igreja de São Francisco de Assis, no Bairro das Palmeiras no tempo do Padre Carlos Giórgis, do qual eram coroinhas o Fernando Marson, o Valdir Brandine e o Laércio Nascimento (Brancão), este quase foi ser padre. Em um dia daquele tempo a madre do Asilo ao ver a dedicação do Fernando como coroinha, prometeu-lhe um presente para o Dia da Criança.
Quando chegou o dia marcado o Fernando quase pulou de alegria com o formato do embrulho do presente que a madre lhe entregou. Parecia ser uma bola de futebol e ele, de posse do embrulho já convidou os amigos para irem até sua casa depois do almoço para inaugurarem a bola. Feito isto saiu correndo da igreja rumo a sua casa, mas não agüentou chegar lá de tanta ansiedade, abriu o pacote quando passava por uma ponte que havia por lá. Triste surpresa o esperava, dentro do pacote não havia bola nenhuma, o presente seguia o gosto da madre, era uma réplica feita de gesso de uma pia de água benta com um anjo na borda. O coroinha quase chorou de tristeza, e ali mesmo deu um bicão no presente dado mandando-o para dentro do rio, e nunca mais voltou à sua função.